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Futebol brasileiro em crise
Fonte: O Globo
por Marcelo Motta - 22/09/2008
O treinador
Gildo Rodrigues (FUTEBOL Cia), 58
anos, passou quase toda a sua vida profissional entre a África
e o Oriente Médio. No final dos anos 90, ele estava na Europa
e decidiu visitar o filho Stefano, que jogava no Vitesse, da
Holanda. Foi com surpresa que viu cinco meninos brasileiros,
todos na faixa dos 15 anos, treinando nas divisões de base do
clube. Parou para observar o quinteto e ficou assustado com o
que viu. Apesar de ainda tão jovens, já não se diferenciavam
dos outros garotos, quase todos holandeses. Nem mesmo o jeito
de carregar a bola lembrava o de um menino brasileiro.
- Estavam totalmente integrados à realidade deles, ao estilo
holandês de jogar. Não tinham mais a nossa identidade, aquela
coisa que diferencia o jogador brasileiro dos demais e que é o
que atraia os estrangeiros - lembra o treinador, atualmente
supervisor das divisões de base da seleção brasileira.
Como Gildo previu na época,
nenhum deles vingou. Deixaram de ter o carimbo de jogador
brasileiro e se tornaram uma cópia holandesa.
- O engraçado é que eles vêm aqui atrás do jeito brasileiro de
jogar. Levam os garotos e os inserem num processo mecânico de
formação. Resultado: o que era diferente acaba se tornando
igual ao que têm lá - lamenta Gildo Rodrigues.
Seleção já sente
os efeitos
O que surpreendeu o treinador
carioca há 10 anos hoje é praticamente uma regra. A cada ano
os clubes europeus, e não apenas os poderosos, sugam do Brasil
talentos cada vez mais precoces. Na prática, estes garotos,
criados dentro do estilo brasileiro de atuar, estão sendo
lapidados em outros países, de acordo com suas tradições,
costumes e forma de jogar. A maioria vai se tornar um
profissional, muitas vezes, sem qualquer resquício da escola
brasileira. Sem habilidade, sem dribles.
- É um problema que pode acabar afetando seriamente o futebol
brasileiro num futuro próximo - alerta Carlos Alberto
Parreira.
A seleção já sente os efeitos deste processo. Os jogadores
atuam de uma forma na Europa e, quando se reúnem para defender
o Brasil, têm que se adaptar aos estilo do futebol
pentacampeão. Sem tempo para isso, o resultado no campo acaba
sendo o que se tem visto: um time sem identificação com a
essência do futebol brasileiro. O que explica, por exemplo, a
repentina mudança de Marcelo, lateral ofensivo dos tempos do
Fluminense e que se tornou um jogador contido, pouco ousado.
No fim do ano passado, Vanderlei Luxemburgo já tinha tocado no
assunto, durante simpósio realizado no Rio de Janeiro. Em sua
palestra, disse que via com preocupação a saída cada vez mais
cedo dos garotos, antes de estarem formados como jogadores
brasileiros.
O hoje treinador do Palmeiras usou o zagueiro Adaílton, do
Santos - ex-clube de Vanderlei - como exemplo do mal que a
saída antes do tempo pode provocar.
- Ele foi garoto para a França e
voltou sem a menor idéia de como se joga no Brasil. Estava
sempre mal colocado, chegava atrasado e acabava batendo muito.
Alguma lei precisa ser criada para impedir a saída tão
prematura dos nossos jogadores - disse Vanderlei, na ocasião.
Mesmo quem está do outro lado do problema tem suas
preocupações. O ex-jogador Leonardo, atualmente dirigente do
Milan, clube comprador, vê com um pé atrás a saída prematura
dos jogadores:
- Só aqueles que conseguem manter as aptidões naturais do
brasileiro acabam se destacando.
Mas a teoria tem mostrado que mesmo os que se destacam nas
divisões de base podem sofrer fortes influências, a ponto de
alterar o estilo de jogar. Atacante do Fluminense, Somália, 31
anos, saiu cedo do país. Tinha 19 anos quando foi para a
Eslovênia. Sabe bem o que pode acontecer com a carreira de um
garoto que vai para o exterior:
- Jogar na Europa foi bom para mim. Era ponta-direita e me
tornei centroavante. Mas tem gente que muda tanto o estilo que
acaba se transformando em outro jogador.
Somália cita um jogador da seleção como exemplo do que pode
acontecer com um brasileiro que vai muito cedo para a Europa:
- Eu joguei com o Anderson no Grêmio. Aquele jogador
habilidoso, que fazia fila driblando e tinha um toque
refinado, não existe mais. Agora temos o volante do Manchester
United. Anderson continua um belo jogador, mas não é mais
aquele menino que foi eleito o melhor do mundo no Mundial
Sub-17.
Os gêmeos Fábio e Rafael, de 17 anos, que trocaram o
Fluminense pelo Manchester United no início de 2008, seguem
pelo mesmo caminho. Já estão se acostumando ao estilo inglês
de jogar. O canhoto Fábio, habilidoso e muito bom no apoio,
tem tido menos chances que o irmão, que se destaca mais na
marcação. Natural, já que na Inglaterra os laterais são, antes
de tudo, jogadores de defesa.
Certamente a mudança será boa
para o Manchester United. Os gêmeos também podem lucrar. Só
quem não ganha nada com isso é o futebol brasileiro.
Fifa teme
uma Copa só com brasileiros
"O Brasil vai acabar sendo batido por ele mesmo se continuar
exportando tantos jogadores. Eles vão se naturalizar e um dia
todas as seleções do mundo jogarão apenas com brasileiros". A
profecia é do presidente da Fifa, Joseph Blatter, cada vez
mais preocupado com a legião de jogadores brasileiros que a
cada ano trocam de nacionalidade e passam a defender a seleção
do país que os abriga.
Para quem acha que Blatter está exagerando, não custa lembrar
que em 2004, no Mundial de Futsal realizado em Tawain, já sob
a chancela da Fifa, a Itália tinha 12 brasileiros
naturalizados numa lista de 14 jogadores. Acabou vice-campeã,
à frente do Brasil.
Quanto mais jovem o jogador vai embora, mais chances ele tem
de vir a se naturalizar. Para tentar limitar o êxodo juvenil,
a Fifa impede que jogadores com menos de 18 anos troquem de
país. A não ser que os pais acompanhem o menino. Por isso,
quando os clubes contratam um menor, levam junto toda a
família.
Antes das eliminatórias para a Copa de 2006, o Qatar ofereceu
US$1 milhão para o atacante Aílton, então brilhando na
Alemanha, se naturalizar. O brasileiro aceitou, mas a Fifa
brecou o negócio, alegando que o jogador tinha que passar pelo
menos um ano no país antes da naturalização.
Mesmo assim, na última Eurocopa havia brasileiros espalhados
por diversas seleções. Portugal tinha Deco e Pepe; a Polônia
veio de Roger, enquanto a campeã Espanha atacou de Marco
Senna. A Turquia, por sua vez, tinha o carioca Mehmet Aurélio.
Exigência
de competitividade inicia no mirim
Exportadores por excelência, os clubes brasileiros negociam
talentos cada vez mais jovens e em quantidade cada vez maior.
Resolvem suas necessidades financeiras imediatas, seguem longe
de se tornarem potências capazes de competir no mercado
internacional e ainda precisam repor suas perdas para compor
suas equipes. Para resolver a equação, o olhar se volta para
as divisões de base. O resultado é uma verdadeira revolução no
processo de formação de jogadores. A linha de produção precisa
ser cada vez mais veloz. Hoje, o ciclo de formação que deveria
ir até os 20 anos, raramente se completa.
Os quatro clubes grandes do Rio disputam o Brasileiro tendo em
seus elencos um total de 32 jogadores com idade para atuar na
base. Alguns teriam idade para jogar nos juvenis e, se fossem
cumprir o ciclo completo, teriam ainda três anos de juniores
pela frente.
A categoria juvenil, aos poucos, substitui a júnior em nível
de importância e se transforma na hora da verdade para os
jogadores. A necessidade dos clubes faz com que, nesta fase,
os jogadores precisem estar técnica e fisicamente prontos para
atender o time profissional.
- Temos que colocar a plantação na estufa mais cedo, para ela
amadurecer mais rápido. Não dá para deixar secar ao ar livre -
afirma Rivelino Serpa, gerente de futebol de base do Flamengo.
- A trajetória é encurtada e o
crescimento técnico e físico é antecipado. Até a década de 90,
os jogadores ficavam mais tempo na base. O jogador que é
diferente, que tem um talento especial, acaba preenchendo
lacunas dos profissionais quando está no juvenil - diz Bruno
Costa, gerente de futebol de base do Fluminense.
Hoje, quem chega ao último ano de juniores sem passagem
importante nos profissionais vê o sonho de sucesso distante.
Em geral, acaba emprestado ou, por vezes, dispensado. Nas
competições de juniores, os poucos jogadores que estão no
último ano da categoria são, em geral, atletas já promovidos
ao profissional mas que, por não serem escalados na equipe
principal, descem para jogar.
- O problema é quando eles descem e desmerecem o fato de estar
na base. Isto precisa ser trabalhado - diz Serpa. - O jovem
olha o topo da escada e esquece o degrau.
Para os treinadores, um desafio também se coloca.
- Às vezes, clubes fazem parcerias em torno de jogadores
juvenis e torna-se necessário negociar. Não há a preocupação
de trabalhar o jovem para subir - diz Caio Júnior, do
Flamengo.
O rubro-negro, por exemplo, negociou jogadores cobiçados pelo
exterior sem sequer passarem pelos profissionais. Foi o caso
do atacante Pedro Beda, vendido à Traffic e logo revendido a
um clube holandês.
- Íamos convocar o Pedro Beda para a sub-20. Na hora de fazer
a relação, soubemos que ele já tinha sido vendido sem sequer
passar pela seleção - conta Gildo Rodrigues, supervisor das
divisões de base da CBF, lembrando o caso do lateral Michel,
também do Flamengo, vendido logo após um torneio com a seleção
de base.
O Flamengo lançou Erick Flores no Brasileiro aos 18 anos. O
time perdera jogadores e precisava de peças. Além do aspecto
técnico, Erick sentiu a diferença física. Hoje, segue entre os
profissionais, mas é trabalhado para voltar melhor.
Num Fluminense sob pressão para
evitar o rebaixamento, o atacante Maicon, de 18 anos, virou
opção constante após a saída de atacantes. Aos 19 anos, Tartá
foi lançado no Estadual e logo apontado como solução. O clube
também negociou jovens para o exterior, como o meia Marinho e
o atacante Maurício - este sequer atuou no profissional.
O Vasco, em crise semelhante, vendeu os promissores Phillipe
Coutinho e Pablo, de 18 anos. Enquanto isso, Alan Kardec e
Alex Teixeira, também de 18, têm a responsabilidade de tirar o
time das últimas colocações. Entre elogios e críticas.
No Botafogo, o goleiro Luís Guilherme, de 16 anos, já treina
nos profissionais e já passou até por um período de testes no
Arsenal. Posto na vitrine, atuou num time reserva do Botafogo
que excursionou pela Europa.
O Flamengo chegou a montar um trabalho de neurolingüística nas
divisões de base. O objetivo é dar aos jovens experiências de
frustração, derrota, vitória e compromisso com resultados mais
cedo.
- Não há tempo de maturação. A idéia de atividade lúdica no
futebol já fica para trás desde o mirim, onde há meninos de 10
ou 11 anos. Já se busca compromisso, competição - diz o
psicólogo do Flamengo, Paulo Ribeiro. - Muitos infantis já têm
contrato profissional. A relação com o clube se empobreceu. Há
jovens que, na base, já se comprometem com clubes europeus.
Não desenvolvem carinho pelo clube. O atleta brasileiro está
mudando antes de sair.
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