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Jogos para Esquecer
21/6/1986
Brasil 1 x 1 França
Estádio Jalisco, Guadalajara-México
Os azares de um jogão histórico e as trapaças do
destino
Na melhor
apresentação da Seleção Brasileira na Copa damos mais uma vez adeus
ao tetra. Dessa vez, os carrascos foram os pênaltis.
A
dramática história do dia em que erros e fatalidades mataram os
nossos sonhos de vitória.
Sábado,
21 de junho de 1986, o Brasil teria todos os motivos para festejar.
Afinal, nesta data comemoravam-se 16 anos do tricampeonato mundial
no México. Mas sábado não foi um dia de festas: o Brasil, mais uma
vez, saía prematuramente de uma Copa do Mundo, desta vez
desclassificado nas quartas-de-final, numa decisão por pênaltis
diante da França, atual campeã européia.
Ao
imediato choque da derrota, numa partida magnífica, que terminou 1 x
1 no tempo regulamentar, gols de Careca e Platini, começou um outro
tipo de jogo, um jogo maniqueísta, em busca do culpado por mais um
fracasso da Seleção de Telê Santana. E foi justamente Telê o
primeiro acusado, como se fosse o responsável pelas bolas nas trave
de Careca e Müller, pelo pênalti chutado em cima do goleiro por
Zico, ainda no segundo tempo, ou pelos outros pênaltis desperdiçados
por Sócrates, Júlio César, no momento da decisão.
Telê
ficará na alça de mira por erros que verdadeiramente cometera ao
longo de quatro meses e 14 dias de preparação desta Seleção:
convocara equivocadamente 29 jogadores, o que criou um clima de
disputa pelas 22 vagas na Copa acima dos limites suportáveis;
afastara todos os pontas, á exceção do inexpressivo extrema esquerda
Edivaldo e culminara com o corte de Renato Gaúcho; e aceitara,
apesar de contrário, uma excursão à Europa, numa temperatura abaixo
de zero. Só definira o time na semana da estréia da Copa e avisara
os verdadeiros titulares apenas horas antes de pisar o campo contra
a Espanha. Enfim, abdicara do diálogo com o grupo, incluindo seus
companheiros de comissão técnica.
Seriam
estes os erros de Telê, e por isso passou a ser o alvo preferido.
Depois dele, viriam os dirigentes Nabi Abi Chedid e José Maria
Marin, acusados de aproveitadores, politiqueiros, vivendo à sombra
da empatia do futebol, incompetentes e incapazes de administrar a
Seleção. Mas eram acusações sem fundamento, pois nenhuma voz se
levantou para lembrar que o ex-presidente da CBF, Giulite Coutinho,
ao não conseguir levar a Copa de 1986 para o Brasil, abandonara a
Seleção - e de resto todo o futebol - à própria sorte, sem deixar um
só plano, sem escolher o técnico, sem sequer acertar, com segurança,
nossa permanência no México. E, acima de Nabi, ninguém lembrou dos
descuidos do futebol brasileiro com o gigantismo do Campeonato
Brasileiro, as arrumações nos campeonatos regionais, a pouca
seriedade dos tribunais esportivos.
Poucos, entretanto, tinham coragem de apontar, talvez por respeito
ou consideração, uma das causas principais da derrota: havia lá
dentro do campo do Estádio de Jalisco, que nos trazia doces
lembranças de 1970, uma geração marcada pelas trapaças da derrota.
Bem ou mal, foi nesta geração que o técnico Telê Santana - ele
próprio um perdedor - apostara em 1982 e fixou um pacto para 1986. E
nela, marcada pelo destino para jamais sentir o sabor de um título
mundial, o Brasil mais uma vez depositara toda a sua esperança. Na
tarde daquele sábado, o país inteiro sentia-se traído em sua fé, até
então inarredável.
Quem
duvidaria, anos atrás, que craques como Edinho, Zico, Júnior e
Sócrates tinham nascido para perder? Zico e seus 703 gols. Sócrates
e suas passadas largas, com ar superior de quem nasceu para decidir
nos momentos difíceis. Júnior e seu malabarismo que traduzia
vitórias. Edinho e seu espírito de capitão.
Em
cada livro, em cada teipe, em cada filme, em cada registro, os nomes
de nossos veteranos serão citados com respeito, admiração e, quem
sabe, alguém escreverá que esta foi uma geração injustiçada. Mas a
história, muito raramente, fala dos perdedpres.
FICHA TÉCNICA
Jogo Nº 713 da
Seleção Brasileira - 21/6/1986
Brasil 1 x 1 França
Competição: Copa do Mundo do México, 1986
Local: Estádio Jalisco
Cidade: Guadalajara (México)
Público:
65.000 pessoas
Árbitro: Ioan Igna (Romênia)
Brasil: Carlos, Josimar, Júlio César, Edinho e Branco;
Alemão, Elzo, Sócrates e Jünior (Silas); Müller (Zico) e Careca.
Técnico: Telê
Santana
França: Bats, Amoros,
Battiston, Bossis, Tousseau - Tigana, Fernandez, Giresse, Platini -
Rocheteau, Stopyra.
Técnico: Henri
Michel
Gols: Careca (16' 1ºT) e Platini (41' 1ºT)
OBS: Na prorrogação, 0x0. Nos pênaltis, França 4x3.
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