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Jogos para Esquecer
12/7/1998
Brasil 0 x 3 França
Estádio Saint-Denis, Paris-França
O
FIM DO SONHO
Um piripaque
derrubou o principal astro da Seleção Brasileira antes da decisão.
Ele insistiu em jogar, mas esteve irreconhecível, como todo o time.
Com
Ronaldinho sem condições e a defesa cometendo erros de sempre, o
penta foi embora...
O
efeito foi imediato. Na preleção a duas horas da Final contra a
França, Zagallo anunciou que Ronaldinho não jogaria depois de ter
sofrido uma indisposição à tarde, quando chegou a desmaiar na
concentração. Edmundo seria o novo titular no
ataque.
"Isso
abateu o grupo", admitiu o técnico. O Camisa 9 não estava lá, no
vestiário do Stade de France. Ronaldinho tinha ido a uma clínica na
região de Paris, junto com o médico Lídio Toledo.
Ele
chegou de táxi às 20h:10, cinquenta minutos antes do início da
partida.
"Não
posso ficar de fora. Quero jogar", disse Ronaldinho, que teria
sofrido um colapso por conta do estresse da decisão.
Zagallo estava relutante, até ouvir a ordem do presidente da CBF,
Ricardo Teixeira: "Bota o Ronaldinho", mandou o cartola. Edmundo
estava no aquecimento quando soube que não iria a campo. O técnico
tentou animar o grupo, mas não conseguiu. "Senti que os jogadores já
estavam afetados. Eles sabiam que o Ronaldinho não tinha condições".
E por que ele insistiu mesmo assim? "Não sei. De repente, poderia
vir uma luz", justificou Zagallo. A luz não veio para Ronaldo. Nem
para o Brasil.
Dizer
que a Seleção enterrou o sonho do pentacampeonato ao escalar um
craque sem condições é uma meia verdade. Os outros 50% da verdade
dizem respeito à defesa brasileira. Contra a França. o Brasil
sintetizou todos os erros que havia cometido no decorrer da
campanha. Júnior Baiano falhou demais. A jogada do escanteio que
gerou o segundo gol de Zidane, nasceu numa bobagem do zagueiro. Dois
escanteios foram cobrados e o segundo gol francês saiu. Outro
pecado, já conhecido da torcida brasileira foi cometido pelo excesso
de preciosismo dos zagueiros. Roberto Carlos abusou das firulas.
Numa delas surgiu o escanteio que originou o primeiro gol francês.
Acabamos como a defesa mais vazada do torneio, com 10 gols sofridos,
quase empatando com a nossa pior atuação (11 gols, em 1938). Contra
a França, sofremos a primeira derrota por três gols de diferença em
Copas.
Todos
estavam embalados pelas lágrimas e pelos apelos inflamados na
semifinal. "Falta apenas um jogo para o penta", dizia Zagallo, após
a partida contra a Holanda. Agora, faltam dezeseis das próximas
Eliminatórias, mais sete da Copa de 2002.
Só que
o ufanismo de Zagallo não pode ser usado para minimizar problemas e,
principalmente, esconder um fato incontestável: poucas Copas foram
tão fáceis de vencer. Claro, sofremos bastante. Mas, por obra do
destino, a Seleção não encontrou pelo caminho adversários
tradicionais como Itália, Alemanha e Argentina ou tidos como
perigosos como Espanha e Nigéria. Em vez disso, passamos por Chile,
Dinamarca e, aí sim um grande time, a Holanda. Restava a França, que
há doze anos não disputava um Mundial.
Infelizmente, nem sempre a lógica funciona no futebol.
Pela
lógica também não se deveria arriscar uma mudança no comando da
Seleção a pouco mais de dois meses da Copa. Mas ela foi feita e
mostrou resultados bons e ruins. Em abril, a CBF anunciou que Zico
seria o coordenador técnico da equipe. Ele funcionaria como uma
espécie de interventos, pois as coisas estavam desandando com
problemas técnicos e disciplinares. Aos poucos, Zico começou a dar
as suas cartas. Isso ficou evidente na volta de Rivaldo à Seleção,
na opção por Giovanni na lista da Copa e no anúncio do time titular
logo na convocação.. Quando diagnosticava algo errado, Zico falava
com Zagallo ou diretamente com o jogador. Inteligente, o ex-craque
do Flamengo nunca partiu para o confronto.
A
chegada de Zico deixou Zagallo inseguro. De repente, ele acordou
para o fato de que um ajuntamento de grandes craques não vira um
time imbatível só porque usa onze camisas amarelas. Talvez muito
tarde. Zagallo não soube explorar a potencialidade individual de
seus Comandados.
Havia
outra coisa muito errada na Seleção. "Eu nunca vi um grupo tão
desunido", queixou-se Zico a um amigo na França. Roberto Carlos e
Romário nunca se entenderam. O lateral, na verdade, não concordava
com o tratamento VIP destinado ao jogador. Nada que se compare a
veemência de Edmundo ao protestar contra a escolha de Bebeto como
substituto de Romário. Dunga teve atrito com Roberto Carlos. O
egocentrismo do do lateral irritava o capitão, que, por sua vez,
ficou melindrado quando a imprensa e alguns jogadores reclamaram de
suas broncas públicas.
Dunga
voltou a se esgoelar a partir do jogo com o Chile e como teve
trabalho...
Novamente a culpa vai para Zagallo. Em quatro anos, ele não
conseguiu uma solução. Cafu foi o melhor ala do Campeonato Italiano,
Roberto Carlos ficou com o título de vice-craque do mundo, Júnior
Baiano foi disputado por clubes da Europa, Aldair segue prestigiado
na Roma. Por que, então o problema? O técnico jamais conseguiu um
entrosamento entre os defensores, sempre teve dificuldades para
posicionar os volantes. Então, Zagallo é o maior responsável pela
derrota? É, como também seria o maior vitorioso em caso contrário.
Ao aceitar o cargo de técnico da Seleção, ele sabia que estaria
diante de um plebiscito, cuja votação final aconteceu no dia 12 de
julho de 1998. Ele perdeu. Por pouco, muito pouco.
FICHA TÉCNICA
Jogo Nº 968 da
Seleção Brasileira - 12/7/1998
Brasil 0 x 3 França
Competição: Copa do Mundo - Final
Local: Stade de France
Cidade: Saint-Denis (França)
Público:
80.000 pessoas
Árbitro: Said Belgola (Marrocos)
Brasil: Taffarel, Cafu, Júnior Baiano, Aldair e Roberto
Carlos; Dunga, César Sampaio (Edmundo), Leonardo (Denílson) e
Rivaldo; Bebeto e Ronaldinho.
Técnico:
Zagallo
França:
Barthez, Thuram, Desailly, Leboeuf e Lizarazu; Deschamps, Petit,
Karembeu (Boghosian) e Djorkaeff (Vieire); Zidane e Guivarch (Dugarry).
Técnico: Aimé Jacquet
Cartões Amarelos:
Júnior Baiano, Deschamps, Karembeu.
Expulsão:
Desailly
Gols: Zidane
(27 e 46' do 1ºT); Petit (47' do 2ºT) |