44
anos de glória
As
conquistas que fizeram do Brasil
a estrela mais brilhante e eficiente
do mundo no maior esporte de massa
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O
goleiro Gilmar conduz a fila de jogadores na comemoração
do primeiro título, na Suécia: depois de muitas decepções,
as primeiras conquistas
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No começo da história das Copas, ocorria com a seleção
brasileira um fenômeno inexplicável. Mesmo reunindo craques
respeitados por sua inigualável habilidade, o time sempre tropeçava
no meio do caminho. Em 1938, na França, a excepcional geração do
zagueiro Domingos da Guia, o "Divino", e do atacante Leônidas
da Silva, o "Diamante Negro", parecia pronta para vencer.
Ficou na terceira colocação, depois de tombar na semifinal diante
da Itália. Pior decepção ocorreria no Mundial de 50. No papel de
anfitrião, o Brasil sonhou alto. Construiu o Maracanã para abrigar
a volta olímpica dos heróis em comemoração ao primeiro título
do escrete nacional. Chegou ao jogo final como franco favorito. A
história, como se sabe, encarregou os pés do uruguaio Ghiggia de
escrever uma tragédia brasileira. Como explicar a patética
campanha de 1954, na Suíça, quando até um jornalista brasileiro
invadiu o campo para vingar a pontapés a surra de 4 a 2 aplicada
pelo esquadrão húngaro de Puskas e Kocsis? Para o escritor Nelson
Rodrigues, essas questões tinham uma resposta simples: os
brasileiros viviam pelas esquinas e botecos tropeçando em sua própria
humildade. Sofriam do "complexo de vira-lata".
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Segundo um relatório
que circulou entre os diretores da Confederação Brasileira de
Desportos pouco antes da Copa de 58, os vexames seguidos ocorriam em
razão do temperamento instável do jogador brasileiro. Em outras
palavras, nossos craques tremiam nas grandes decisões. Nos campos
da Suécia, o Brasil parecia fadado a repetir o papel infeliz de
outras campanhas. Duas alterações fundamentais no time mudaram
esse cenário. Antes do jogo contra a União Soviética, o terceiro
do Brasil naquela Copa, entraram em campo Pelé, então um garoto de
17 anos, e Garrincha. Em apenas dois minutos de jogo, eternizados na
antologia dos Mundiais, Garrincha infernizou os adversários com
dribles desmoralizantes. O Brasil começava a enterrar seu complexo
de inferioridade. A vitória final de 5 a 2 sobre a Suécia, com
direito a um gol de placa de Pelé, que aplicou um "chapéu"
num zagueiro antes de arrematar para as redes, não só deu ao
Brasil sua primeira Copa como provou que os malabaristas da bola
eram capazes de vencer.
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artins
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Pelé
comemora mais um gol na Copa de 70, no México, dando um
soco no ar, sua marca registrada
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A Copa do Chile, em 1962, mostrou que a seleção estava
pronta para enfrentar todo tipo de dificuldade. Mesmo criticada por
apostar nos craques veteranos, que haviam jogado na Suécia, a
comissão técnica não se desviou de seu objetivo até contabilizar
uma terrível baixa. Aos 28 minutos da segunda partida do time
naquele Mundial, Pelé, depois de arriscar um chute forte, colocou a
mão na virilha. O que seria do Brasil sem ele? Garrincha deu a
resposta, multiplicando-se em campo. Além dos dribles geniais, fez
gols importantes e tornou-se a grande estrela do time. Para espanto
de muitos, Amarildo conseguiu substituir Pelé à altura. O Brasil
era bicampeão.
Nas duas Copas
seguintes, Pelé tentou comprovar a fama de melhor jogador do mundo.
Em 1966, na Inglaterra, foi caçado em campo, saiu machucado e pouco
pôde fazer para evitar uma das piores campanhas brasileiras na história
dos Mundiais. Já na vitoriosa campanha do México, o maior jogador
do mundo estava no auge. Foi o astro do time, considerado por muitos
como o melhor que já se viu na história das Copas. A inesquecível
constelação formada por Clodoaldo, Gérson, Rivellino, Pelé, Tostão
e Jairzinho só atuou junta durante os seis jogos da seleção
naquele Mundial. Na campanha, com seis vitórias, Pelé assombrou o
mundo com lances geniais. A vitória por 4 a 1 na final sobre a Itália
encerrou a soberba campanha.
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No
Mundial de 1994 o craque Romário encarnou o espírito
vencedor e jogou para escanteio para sempre o complexo de
vira-lata de que falava Nelson Rodrigues
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AE
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Após o tricampeonato, o "complexo de vira-lata" voltou a
rondar a seleção brasileira. No Mundial da Alemanha, em 1974, o
time tropeçou na autoconfiança e na eficiência do Carrossel
Holandês liderado por Cruyff. Com a derrota por 2 a 0 para a
Holanda e um quarto lugar sem brilho no Mundial, os brasileiros
descobriram que a competitividade da seleção desaparecera diante
da organização tática e do preparo físico científico dos
europeus. O futebol brasileiro foi novamente atacado por uma crise
de identidade.
Por muitos
anos calam-se as discussões sobre se temos ou não o melhor futebol
do mundo, uma dúvida muito mais presente no Brasil que na Europa,
onde a seleção da camisa amarela é sempre vista com reverência. A
trajetória de glórias dos jogadores brasileiros podia ser resumida
no domingo na imagem em que o capitão Cafu, que aos 32 anos
disputava sua terceira final consecutiva, levantou gloriosamente a
taça, repetindo o gesto consagrador de Bellini, Mauro, Carlos
Alberto Torres e Dunga. Se houvesse vencido, a Alemanha igualaria
tudo. O futebol teria dois tetras e um bom motivo para debates
intermináveis nos botequins, cervejarias, arquibancadas e
programas de TV: quem, afinal, seria o número 1 do reino da bola?
O assunto está encerrado pelas próximas Copas. É o Brasil, e ponto
final.
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