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SELEÇÃO BRASILEIRA

 

Copa do Mundo do México 1970

Brasil Tricampeão Mundial

 

Começamos a ganhar a Copa

O quinto jogo


Brasil 3 x 1 Uruguai (Jogo Nº 440 da Seleção)


Data: 17/6/1970 - Semifinal

Local: Estádio Jalisco
Cidade: Guadalajara (México)

Público: 51.261 pessoas
Árbitro: José Maria Ortiz de Mendibil (Espanha)


Brasil

Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino.

Técnico: Zagallo

 

Uruguai

Mazurkiewicz, Ubiñas, Ancheta, Matosas e Mujica; Montero Castillo, Cortés e Maneiro (Spárrago); Cubilla, Fontes e Morales.

Técnico: Juan Hohberg


Gols: Cubilla (18') e Clodoaldo (45') do 1o.T.; Jairzinho (30') e Rivelino (43') do 2o. T.

Cartões amarelos: Carlos Alberto, Brito, Piazza e Fontes

 

 

A hora de vingar a derrota na final da Copa de 50 finalmente havia chegado. Quando Brasil e Uruguai entraram em campo para disputar uma das semifinais do Mundial do México, não era apenas um jogo que começava, mas um pesadelo que estava próximo do fim.

 

Um jogo nervoso, quente, de fazer a gente chorar, de gritar, de aplaudir Clodoaldo, Jair e Rivelino, as feras que colocaram três gols na rede do Uruguai e acabaram com uma dor de 20 anos. No começo, o Brasil estava mal: deu seu primeiro chute aos 27 minutos. Em todo o jogo, deu só 14 chutes.

 

Eram 22 homens diferentes, 20 anos distantes de uma história que boa parte dos brasileiros só conhece pelo que contam velhos jornais. E tudo parecia tão recente. A história iria repetir-se?

 

À mente de cada brasileiro - percebia-se à distância - parecia estar ligada uma máquina do tempo, vivendo um acontecimento que não viram. O começo lento em demasia, o nervosismo, o excesso de cautela na defesa (só Tostão estava lá na frente, lutando contra uma barreira azul que lhe parecia o infinito), os passes cruzados, sempre telegrafados, sempre interrompidos por pernas de meias pretas, a insegurança.

 

A gana, a malícia, a catimba. A defesa trancada, dez homens sempre dispostos a jogar dentro de seu campo. A paciência de se ver sempre atacado sem se desesperar. A violência quando era necessária - e ela o foi muitas vezes.

 

A sensação de que a história se repetiria aumentou aos 18 minutos, quando Félix falhou e Cubilla fez Jalisco parecer o Maracanã. Um chute fraco, sem muito ângulo: Uruguai 1 x 0. Mas o autor da história ainda não lhe colocara o ponto final. O livro ainda não fôra levado de volta à estante.

 

A história seguia seu rumo e a partir daquele instante tudo pareceu ficar diferente: acabou o nervosismo exagerado, os passes laterais, a excessiva preocupação defensiva, o medo de ir à frente. O time foi ao ataque, passou a brigar, a querer parar a máquina do tempo, quebrando a fita que teimava em se repetir.

 

Da guerra nasceu o entusiasmo, vieram novas forças. O pingo d'água se tornou mais forte, a pedra começava a rachar: Clodoaldo entrando pela esquerda, o passe para Tostão. a devolução perfeita, Clodoaldo arrebentando a máquina do tempo, Mazurkiewicz vencido, 1 x 1. O primeiro capítulo da história acabava diferente. Os 22 homens eram outros, o autor teria que ser outro. Seria?

 

O Uruguai se encarrega de abrir o segundo capítulo, mas logo Everaldo domina a bola. Tudo parece igual, com a bola quase sempre rolando entre os dois meio-campos. Só que agora o Brasil toca melhor a bola, embora ainda continue com jogadas telegrafadas no ataque.

 

O autor continua a procurar um final para a sua história. Insistia em não repetir um desfecho que os papéis empoeirados guardam há 20 anos.

 

O Brasil jogando melhor, mas o Uruguai se defendendo muito bem. O juiz inventa uma falta contra o Brasil que, cobrada, dá em nada - mas era muito perigosa. Os uruguaios fazem as faltas que bem entendem, não são advertidos pelo juiz. Agora é Morales que arma uma cama-de-gato para Félix, que cai. O uruguaio nem mesmo é advertido.

 

Parece que o curso da história vai mudar: México, Estádio de Jalisco, 16 minutos do segundo tempo: Pelé vai como um furacão, driblando todo mundo, entra na área, é derrubado por Ancheta. Tostão corre para a marca do pênalti - juiz espanhol aponta para as proximidades da risca da grande área.

 

Começamos a acreditar na história com muita razão. A pedra parece crescer, transformar-se numa montanha amedrontadora. Às vezes os pingos parecem tornar-se mais fracos - e vem o medo de que a história se repita. Não que a fonte de onde jorra a água, bendita possa secar: ela é pródiga. É que a rocha cada vez se torna mais violenta, ameaçadora, infringindo as regras do jogo, da paciência, da bola que rola mais mansa para um lado do que para o outro.

 

Lá vem o Brasil de jovo, o pingo d'água persistente: Gérson para Carlos Alberto, este para Jair, para Pelé, para Tostão, que deixa passar para Jair. Matosas fica para trás - também 50 - , Mazurkiewicz atira-se em vão e, descontrolado, vê a bola morrer no fundo de suas redes: Brasil 2 x 1. O pingo d'água é uma enchente que começa a engrossar.

 

Os uruguaios não se conformam em que a história seja reescrita, tentam tudo - até e principalmente a violência - para que o infinito seja sempre azul, sempre celeste. Mas no céu de Guadalajara brilha forte um sol amarelo. É hora da catimba. Zagallo entra em campo, vai ser expulso pelo juiz - a história tem que seguir seu curso até a última linha do capítulo derradeiro.

 

Faltam três minutos - e tudo é sofrimento nas arquibancadas. Pelé domina a bola, parte para a área, dança na frente de Ubiñas, dá para Rivelino: é gol.

 

O autor já não tem dúvidas de que deve respeitar a poeira que guarda uma história de 20 anos. Os homens são outros, a história não pode ser a mesma, são três gols contra apenas um, Tostão afinal provou que o infinito tem fim.

 

O autor encontra um título para o novo livro.

 

Os 11 heróis de Jalisco

 

 

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